Um país sem artistas é o quê? – JN

http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=2901614&opiniao=Daniel+Deusdado

O ministro da Educação, Nuno Crato, sempre foi claro sobre o que pensava: defendia exigência. Mas há uma diferença entre a exigência e prepotência. E o problema em concreto é este: os alunos do ensino artístico e profissional, atualmente no 12.º ano, deveriam terminar o ano letivo com a realização de trabalhos artísticos ou técnicos, sobre as quais são avaliados.

Não deixam, obviamente, de fazer as provas de acesso exigidas por cada universidade. Mas Nuno Crato acha este modelo insuficiente e exige, já este ano letivo, as alterações das regras, esquecendo um ponto essencial: não fazem exames nacionais mas os currículos diferenciados, por exemplo, na área artística, obrigam a cargas horárias superiores às do ensino regular.

A “Prova de Aptidão Artística” para conclusão do 12.º ano é feita perante um júri composto por pessoas ligadas às empresas e ao ensino Superior. É nesta situação que estão, por exemplo, os alunos da ímpar Escola Soares dos Reis, do Porto, e de muitas outras ao longo do país.

Pergunta-se: o Governo pode alterar as regras a meio do jogo sem que os alunos, que escolheram no 10.0º ano esta via de ensino, soubessem o que os espera no fim? É obviamente uma medida retroativa que será impugnada judicialmente caso o ministro não recue…

2. Mas esta questão do ensino das Artes bate certo com a aragem do tempo. Não está em causa que Portugal não deva ter mais engenheiros, cientistas ou informáticos. Só que as Artes não podem ser abandonadas, sobretudo num contexto de uma esmagadora normalização de comportamentos e vocações economicistas/utilitárias.

O sinal de Crato vai neste sentido mas escolhamos um exemplo que diz mais ao ministro: os cientistas são eles próprios artistas da inovação. Quando desenvolvem o seu trabalho numa universidade, laboratório ou grande empresa, são essenciais ao país. Há programas como “Ciência Viva” e muitos outros apoios comunitários a garantir a manutenção deste sistema. Os cientistas são inquestionáveis, não são parasitas. No entanto, quando se trata de uns fulanos que desenham, fazem filmes, vivem da música ou do teatro, tudo muda. Fica a pergunta: Nuno Crato quando sai do Ministério, à noite, faz o quê? Vai para um laboratório ver moléculas? Resolver mais uns exercícios de matemática pura? Ou lê, vai ao cinema, ao teatro ou a um concerto, para que a vida não seja apenas ciência e tecnologia? Por outras palavras: a Arte não é inovação? A Beleza, o novo, o contagio de criatividade, não são essenciais para todas as atividades em redor?

3. É aqui que entram os “subsídios”. O Ministério da Economia anda ávido por fomentar a aplicação de milhões de euros em “crescimento”. Há dinheiro para quase tudo – criação de ‘sites’, viagens de fomento da internacionalização, dinheiro para estudos estratégicos, estímulos ao capital de risco… Desde que, atenção!, sejam atividades económicas reconhecidas pelo Estado. E as Artes não fazem parte deste jogo. O Ministério da Economia, ou da Cultura, não têm dinheiro para fomentar ‘capital de risco’ que signifique fazer cinema, música, teatro, artes plásticas. Ou seja, se são coisas físicas, está certo. Se é inovação artística, são parasitas. Nesse caso já não há “capital de risco” para projetos. Chamam-lhe subsidiodependência.

Se hoje vendemos mais sapatos e vestuário de qualidade não se deve a fazermos apenas melhor os produtos mas sobretudo ao design e sofisticação das nossas marcas. Portugal só pode ser melhor se crescer pelo valor. É isto que nos distingue dos asiáticos ou sul-americanos. Portanto, precisamos de não expulsar do sistema os que verdadeiramente só conseguem viver dentro da sua pulsão artística e criam, e nos levam mais longe através de palavras, ideias, pintura, filmes, design ou música… e são artistas porque é nisso que se destacam. Cientistas das artes, se preferirem. Têm direito a serem integrados no crescimento económico? A Maria João Pires, a Mariza, a Joana Vasconcelos, o Lobo Antunes ou o Miguel Sousa Tavares são economia transacionável – exportam. Precisamos de mais gente assim e de oportunidades para que surjam outros. Com o mesmo dinheiro do “crescimento económico” podemos abranger metalomecânicas ou teatro. Biotecnologia ou música. Sem tabus. Sem Artes seremos apenas mercadorias.

 

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